Arte e Espiritualidade Publicado em:
17/05/2004
por: Mozart Mello
 

A palavra espiritualidade me sugere imagens de Jesus, Buda ou Krishna, ou mesmo a iluminação de santos, anjos, entidades, yogues, extraterrenos. A palavra amor me sugere formas de amor: amor próprio, à natureza, aos filhos, aos animais, a outra pessoa, e amor à arte.

Para mim, a forma de amor para se atingir a espiritualidade é a meditação, oração, doação, desapego, humildade, fraternidade. Penso em Chico Xavier, Ghandi, Madre Tereza, em tantos outros anônimos. Penso também em música, Bach, por exemplo,

Quando penso na ausência de espiritualidade, na ausência de formas de amor, imagino o solitário ser humano contemporâneo e seus anestésicos. Dinheiro, poder, sexo, consumo, drogas, culto ao corpo, culto a inteligência. E também a arte, quando associada a sucesso, ego, manipulação, alienação. Nada mais de que um eficiente disfarce ou “disfarte” para a real intenção.

Qual a verdadeira razão de música ao vivo nos showmícios às vésperas das eleições? Após as eleições os músicos são lembrados? Não se trata de mais uma reclamação, mas somente uma constatação. A polaridade está presente em todo o universo. É uma lei. A arte oscila pelo positivo e o negativo o tempo todo. Cuidado com o seu pré-conceito ou diagnóstico precoce: estamos falando de um planeta maravilhoso, mas karmático, um planeta-escola cheio de anestésicos.

Cena 1
Você está tocando um simples "C" num show de música sertaneja para 70 mil pessoas. Você é um músico virtuoso e talvez doutor em música, tocando apenas um "C". Você está sendo remunerado dignamente e pelo menos 5 mil pessoas estão cantando muito emocionadas, enfim chorando, cada uma por seu particular e íntimo motivo. Corta a cena.

Cena2
Agora você está tocando num festival internacional de Jazz e já está improvisando (virtuosamente) há 8 minutos, e essa é somente a primeira música. Na platéia estão presentes mil pessoas e entre elas, 30 muito emocionadas. Corta a cena.

Cena3
Você está num bar num sábado à noite e a platéia toda está dançando e cantando aquele hit arrasador daquela banda arrasadora. Muita bebida, muita mulher, talvez outras coisas também, enfim, todos parecem felizes. Corta a cena.

Cena4
O teatro é muito grande, até assustador. É apenas o décimo recital do pianista não muito conhecido. Na platéia somente 100 pessoas. A música é espiritual e envolvente, uma música celestial sai daquele pequeno piano, naquele imenso teatro. A música envolve as pessoas presentes, na verdade, menos aquele cidadão que ronca muito na segunda fileira. A música é divina.
Corta a cena. E corta a cena. E corta...

Você que esteve em todas essas cenas me diga onde está a arte e a espiritualidade. Eu estava lá também, estava presente, sentindo, pulsando, interagindo, me emocionando, vivendo. Em nenhum momento pensei sobre arte e espiritualidade.

 
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